por que ser solteirA é sinônimo de fracasso?
obviamente, porque ser solteirO não é.
por que ser solteirA é sinônimo de fracasso, mesmo que você tenha tudo, em qualquer outro sentido, na vida?
não me leve a mal, não tenho tudo em qualquer outro sentido na vida, — estou mais próxima da morte do que disso.
entretanto, o que tenho é muita experiência em ser solteira, já que nunca namorei em mais vinte e dois — (22 numericamente, XXII em números romanos), — anos de vida. e experiência exacerbada no assunto garante especialidade em uma situação que muitos passam, mas poucos se mantém: ser a única pessoa solteira do ambiente.
é constrangedor, despertando a sensação de como se você tivesse reprovado no jardim de infância, enquanto todos estão na pós-graduação da vida. um relacionamento o faz passar aprender coisas que somente um relacionamento pode ensinar.
regras da vida.
esse é um ponto que considerava comum para todos as pessoas solteiras do mundo, e realmente, para algumas delas é.
entretanto, tive uma terrível surpresa ao perceber que a sensação de ser solteiro pode ser angustiante para todos os gêneros, mas só é retratada como vocalmente “humilhante” para uma mulher.
é fácil em muitos anos notar que quando há um grande grupo de casais, sempre virarão para você (a mulher) no ambiente questionando quando finalmente, em tom de miséria, será você uma deles, — como se houvesse qualquer problema em gostar de sua própria companhia, — mesmo se houver dois homens solteirOs a vista aproveitando muito bem a falta de inquisição social de como eles precisam de alguém na sua vida para ser feliz.
é sempre um tom de pena, — ou deboche, — direcionado à mulheres que não existe para falar de homens descompromissados. porque homens solteiros estão somente sozinhos “por um período, aguardando para quando quiserem escolher a próxima parceira.” e mulheres solteiras estão sozinhas porque “não foram escolhidas por ninguém.”
um ciclo eterno em tratar garotas como objetos de escolha, que perpetua a sociedade misógina.
“você tem que estar feliz em estar nesse casamento falido em que lhe coloco como prestadora de serviços particular, sem qualquer salário, porque te escolhi.”
“você tem que estar feliz em estar nesse relacionamento, mesmo sendo traída, porque eu te escolhi.”
até mesmo publicar fotos juntos em qualquer rede social torna-se um gesto de “te escolhi, estou te assumindo para o mundo”, obrigando-as a pensar que estão sendo escolhidas.
infelizmente, uma foto não lhe garantirá um relacionamento duradouro perpétuo.
ao mesmo tempo que não a publicar também deixa subentendido que essa pessoa não quer que outras saibam que ela não está disponível porque esta em uma relação monogâmica.
vê como é complicado?
o ponto não são relacionamentos e suas bases fortificadas com suas presenças nas redes sociais. e sim, como ao final do dia, mulheres são categorizadas por situações como essas, que não deveriam nem dizer muito sobre um perfil de rede social, quanto mais sobre quem uma mulher é.
é ligeiramente pior porque atitudes e situações tão pequenas relacionada à vida amorosa, — ou falta dela, — têm o poder de definir uma mulher, mas qualquer outro aspecto da sua personalidade, carreira ou vida acadêmica, não?
você é líder de equipe, “mas esse homem que você namora há cinco anos não te pede em casamento? culpa sua por deixar.”
você é reconhecida pelo seu trabalho, “mas está bem longe de construir uma família como sua prima que é anos mais nova que você? saiba que irá envelhecer” —, assim como todo mundo na terra, diga-se de passagem.
você pode passar em segundo lugar em uma universidade federal, “mas você nunca irá namorar? irá ficar mal amada e solitária o resto da vida” —, essa com certeza seria eu.
todas as grandes e pequenas conquistas femininas são diminuídas ou demonizadas quando colocadas a frente de seus relacionamentos, — e falta deles.
tenho uma amiga muito próxima, - nem tão querida por todos assim, — que passa por algo parecido há alguns anos.
você pode não concordar ou gostar de taylor swift, mas você não pode negar que ela é a artista com o maior número de conquistas e impacto da geração moderna.
a maior e mais lucrativa turnê da história, única artista na história a ganhar quatro vezes o principal prêmio do grammy’s, números estratosféricos e inalcançáveis no spotify, ou vendas físicas.
e mesmo assim, o tópico mais comentado sobre sua vida são seus relacionamentos amorosos?
não me entenda mal, não estou aqui para ser “jurídico taylor swift”, que seja. mas consigo pensar em dez artistas masculinos com relacionamentos públicos, com outras figuras públicas, que escrevem e cantam sobre essas figuras públicas, e não ganham um artigo com sua lista de ex-namoradas, minimizando sua carreira, — a maioria deles com uma carreira bem menos impressionante.
você pode ser a mulher mais importante do seu meio, na sua geração, mas sua vida só estará completa com uma aliança de noivado na mão direita, — ou esquerda? percebam como sou tão solteira que nem ao menos sei.
você pode ter tudo sendo uma mulher, se você não tem um relacionamento, então dirão que lhe falta tudo.
no cinema, é mais fácil de encontrar essa representação no gênero que mais amo em todo o mundo, — as comédias românticas.
toda grande girlboss do cinema, é uma grande reencarnação do belzebu, — uma clara representação de como vêm toda grande mulher bem sucedida na realidade. - e todas elas são assim, porque a vida agitada, o sucesso, as responsabilidades, não permitem que elas sejam essencialmente femininas.
e não estou falando de saltos, maquiagem, cabelo arrumado e a cor rosa. estou falando essencialmente femininas no sentido de poder parar de pensar porque tem um homem pensado por você. — por deus, como se eles pudessem pensar por si mesmos, com todo o respeito.
então quando um grande protagonista entra em suas vidas, e mostra que elas não precisam tomar conta de tudo, que na verdade ser uma grande chefe era o que estava atrapalhando de encontrar sua verdadeira forma de ser mulher, - pois para produtores de cinemas, verdadeiras mulheres não devem pesar tanto, - tudo se encaixa.
é como se elas dissessem: “ah, por isso eu estava infeliz! eu tinha um emprego pagando uma bolada, e um cargo prestigiado, mas me faltava o essencial: um homem!”
é simples identificar que àquelas que fogem desse enredo linear são sempre os seres humanos mais desprezíveis que já andaram pela terra em uma representação de egoísmo e egocentrismo, — porque uma mulher solteira que não tem encontrar um relacionamento como base de sua vida e acima de sua carreira só pode ser isso, egocêntrica.
“porque uma mulher de verdade pode ter tudo, mas não sobra nada sem o amor.”
poético. pouco menos romântico quando lembramos que um homem sem amor romântico ainda é um homem, enquanto uma mulher sem amor romântico é ‘nada’.
essa newsletter foi completamente influenciada por essa entrevista abaixo sobre representação de mulheres e amor nas comédias românticas dos anos 2000, conhecidas como pós-feministas!
oi, estou de volta! :D




Texto certeiro! Estranho como a gente nem consegue descer pela história para encontrar o motivo disso, ainda mais sabendo que "amor" não é categoria de existência em espécie funcional e comunitária nenhuma de ser vivo, só dos que se dizem "racionais". Por muito tempo me fizeram achar que eu precisava namorar igual a quem estava ao meu redor e a única coisa que isso me deu foi um histórico de abandono, abuso e tolerância desnecessária, porque, afinal, quem é escolhida tem que ser grata só por ter sido escolhida, mesmo que isso não de absolutamente nenhum benefício.
Algum dia pretendo encontrar quem saiba porquê isso acontece, porque às vezes culpar o patriarcado é óbvio mas não dá pra lutar contra o que não sabemos como funciona.
Enfim, aproveite sua solteirice, essa é a melhor fase da vida. Excelente texto!
Nunca o que as mulheres fazem está bom o suficiente para a sociedade. Mulheres solteiras são fracassadas, mas as que namoram não são "cool" também seguindo a Vogue. A vida deveria (e realmente é) mais que relacionamentos amorosos.